Quinta-feira, 10 de Fevereiro de 2011

REUNIÃO DE 9 DE FEVEREIRO

Um hipermercado em Quarteira

 

 Quando eu era criança, os meus pais tiveram uma loja. Uma venda, como então se dizia.
Atrás do balcão, a minha mãe ia vendendo um pacote de açúcar, um sabonete, um carrinho de linhas, cinco tostões de rebuçados…

Entrava uma vizinha, levava uma barra de sabão, um par de atacadores e um cartuchinho de cevada.
– Dona Maria, assente ai, faça favor.

Então, a minha mãe sacava do caderninho onde estavam os nomes das freguesas e lá fazia o seu apontamento, que ficava à espera até que uma boa pescaria permitisse à freguesa ir pagar o fiado e… abrir nova conta.

E eu lá atrás, de bibe, numa cadeira baixinha, ia fazendo os trabalhos de casa, consolada com o cheirinho a açúcar amarelo e a cevada torrada.

Dava pouco, a loja pequenina e escura. Dava o que dava, na ajuda ao curto orçamento familiar desde que meu pai voltara irremediavelmente debilitado pelas longas estadias no mar.

Na aldeia, as lojas eram quase todas assim: humildes balcões de madeira, pequeninos, pouca luz, poucas coisas nas prateleiras, poucas moedas a tilintar na gaveta.

Depois o progresso começou a apossar-se de Quarteira. Começaram a abrir novas lojas. Com montras, prateleiras cheias, caixas registadoras. Os fregueses preferiam ter por onde escolher e deram em rarear ainda mais. A loja da Dona Maria não aguentou. Não valia a pena trabalhar para aquecer. Fechou. Morreu como todo o comércio tradicional de então.

Ficaram as lojas de montras iluminadas e caixas registadoras. Cada vez maiores, cada vez mais atractivas. Mas as que vendiam açúcar já não vendiam linhas. As que vendiam linhas não vendiam batatas nem cadernos escolares. Eram papelarias, ou prontos a vestir, ou mercearias, ou drogarias… Quem não quis ou não pôde adaptar-se procurou outro emprego ou resignou-se. Surgira um novo comércio tradicional.

Mas um dia apareceu alguém com novas ideias e montou uma loja maior, com prateleiras e cestos e cada um servia-se a si mesmo e pagava à saída. Chamaram-lhe supermercado. Nascia um novo comércio tradicional.

Este novo comércio tradicional vendia outra vez de tudo: batatas e açúcar; linhas e perfumes; roupa interior e plásticos, congelados e enlatados…

Escapavam poucos géneros: sapatarias, ourivesarias, electrodo-mésticos, livrarias, farmácias e pouco mais - que ainda se consideram hoje o comércio tradicional.

Quarteira crescia. Já não era aldeia. Era uma vila cheia de casas altíssimas à beira-mar e as pessoas iam e vinham e, cada vez mais, enchiam a marginal, no verão. Mas não tínhamos qualquer superfície comercial que satisfizesse a procura. por parte dos banhistas.

Entretanto nasceram novos conceitos para o comércio local: os supermercados cresceram, engordaram e tornaram-se hipermercados e tinham cada vez mais de tudo. As pessoas gostavam, e iam lá por juntar o útil ao agradável: compravam o que precisavam e às vezes o que não precisavam e passavam o tempo passeando por ali.

Mas aquelas lojas cresciam, cresciam, começaram a agregar lojas de todos os tipos, onde os «velhos» comerciantes tradicionais podiam ter o seu próprio espaço, e onde, assim, toda a gente podia encontrar de tudo. Tinham nascido os centros comerciais.

Que um dia irão, por sua vez, tornar-se obsoletos e também deixarão de ser, por sua vez, o comércio tradicional.

 

Veio-me esta reflexão à cabeça quando ontem, à Reunião de Câmara, chegou o pedido de informação para a provável instalação do primeiro hipermercado de Quarteira: um Pingo Doce, à entrada da cidade, na estrada que nos liga a Loulé.

Daqui por umas dezenas de anos, também ele, como a lojinha da Dona Maria, irá dar lugar a um futuro – e agora inimaginável – comércio tradicional.

- o – o – o – o – o -

publicado por hortense morgado às 23:03
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