Quinta-feira, 7 de Julho de 2011

REUNIÃO DE CÂMARA 6/jul/2011

A FONTE SANTA

A Fonte Santa faz parte da memória colectiva dos quarteirenses.  

Jamais sairão da minha sau-dade as recordações daquele espaço nem o cheiro das ervas que cobriam aquela terra donde borbulhava a água.  

Quando o mulherio da Rua de São João se juntava para ir até lá lavar e corar ao sol os lençóis, nós, as crianças, íamos à cata de pinga-azeites e de joaninhas…

- Joaninha avoa, avoa que o teu pai 'tá em Lisboa…  

Se saltava um gafanhoto, aí era ver as raparigas aos gritos, enquanto os moços demonstravam a sua masculinidade apanhando os saltitões e arrancando-lhes as patinhas.

Se, no meio da confusão, eu conseguia escapar à vigilância materna, adorava tirar as sandálias e mergulhar os pés naquela humidade feita de margaridas e a ressumar a mantrasto; mas vinha logo uma vizinha a pôr fim àquele prazer infantil:

- Maria, olha a tua Hortense!... Anda p’ráli descalça – e pronto, lá vinha ameaça e o prazer chegava ao fim.

Com o meu pai, não. Era tudo mais calmo, mais complacente.

Ele ia quase sempre ao pôr do sol encher um ou dois garrafões que aquela água era mesmo «santa»: fazia bem ao fígado, à pele e a não sei bem ao quê mais. Quando não ia na motorizada, levava-me com ele.

Milhares e milhares de rãs ensurdeciam-nos com o seu coaxar. Ouviam-se as aves a piar, escondidas sabe-se lá onde.

Meu pai fingia que não me via tirar os soquetes, descalçar as sandálias e patinhar na lama e, por fim, dava o sinal:

- 'Bora!

E lá vínhamos os dois; à frente, ele, sem dizer uma palavra, um garrafão em cada mão e eu atrás, inventando bonecas em corolas de papoilas rubras, ou compondo um raminho de flores azuis. Nunca soube como se chamavam aquelas flores minúsculas mas o mais certo era acabarem secas e espalmadas entre as folhas do meu livro de leitura.

A lua começava a desenhar-se em branco, ali para os lados de Faro, e só a estrela d’alva brilhava no firmamento. O sino soava para os lados onde o sol se escondera. Então, a Fonte Santa era já uma recordação bonita. Como é hoje. Como será até ao fim dos meus dias.

Aquele espaço sempre foi de todos, como a areia da praia, o tomilho nos pinhais, o valado duma ribeira, a música das ondas, o murmurar do vento.  

O «povo» deu-lhe uma placa de azulejos e consagrou-o como coisa pública. Essas homenagens ainda lá estão.

Mas, aqui há uns anos - uns quinze ou dezasseis, talvez - de repente a Fonte Santa deixou de ser nossa. Passou a ter um dono»: ganhou uma rede, umas paredes, uma caderneta predial e acho que chegou a ter um arame farpado.

Há dias, reparei que as máquinas que trabalham nas obras do prolongamento da Av. Sá Carneiro, em Quarteira, estão a usar o espaço envolvente como uma espécie de estaleiro, de onde arrancaram mato, aplainaram terras e se acolhem, cada vez mais encostadas ao tanque da Fonte Santa, onde uma ou outra mulher ainda vai lavar os farrapinhos familiares.

Esta situação levou-me a apresentar, na reunião de Câmara do passado dia 6, a seguinte questão:

antes da ordem do dia.

 

Tanto quanto sei, o espaço envolvente da Fonte, que desde que me conheço foi de acesso e usufruto da população, é, actualmente, propriedade particular.

No entanto, a Fonte Santa está ligada aos usos, costumes e tradições quarteirenses.

Como essa área agora integra ou é adjacente à Zona de Expansão Norte-Nordeste, o senhor presidente, por acaso, equacionou a hipótese de aquisição através das normas da perequação desse espaço que, uma vez convenientemente tratado, poderia voltar a ser de domínio público sob a forma de jardim ou parque de merendas, por exemplo? 

 

Resposta: O senhor presidente respondeu que a perequação não pode responder a esta questão. Acrescentou ainda que esta hipó-tese de «restituição» ao domínio público nunca se pusera, mas que, se mais tarde, a hipótese se puser, certamente a proposta poderá vira ser equacionada.

 

Conclusão: A hipótese ficou agora posta. Cumpre a quem de direito analisar e reconhecer, ou não, se devem, ou não ser preservados o património e a memória dum povo.

 

Pintura de rotundas e lancis em Quarteira

Outra assunto que apresentei respeitou ao recente trabalho de pinturas que estão a ser executadas nos lancis, em Quarteira:

Tendo verificado que em Quarteira estão a ser pintadas as indicações de estacionamento/trânsito nas rotundas e lancis com cores que me parecem impróprias, questionei o Sr Presidente sobre quem recai a responsabilidade da pintura e da escolha dessas cores.

 

Resposta: O Sr. presidente esclareceu que, apesar dessas pinturas serem da responsabilidade da Câmara, foram delegadas competências à Junta de Freguesia para a realização desses trabalhos. Mas acrescentou que ser «feio ou bonito» depende dos gostos de quem as vê.

 

Conclusão: Pois arrisco-me a dizer que ou eu tenho os gostos estragados ou aquelas cores e tons foram mesmo muito mal escolhidos.

- o – o – o – o – o -

publicado por hortense morgado às 08:38
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